BALADA DO LOUCO

This is the strangest life I have ever known.

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Aliens II

Dunha era o homem do saco. Aquele que carrega sempre um saco de estopa nas costas e que as mães usam como ameaça: "Se você não for dormir já, vou chamar o Dunha." Se as crianças soubessem que o Dunha não fazia mal a ninguém...

Com menos de metro e meio, sempre sem camisa sobre aquele corpo franzino e encurvado, trabalhava de sol a sol. Passava o dia inteiro empurrando um carrinho de mão, ajudando (ou trabalhando?) em alguma pequena reforma, alguma obra. Pela manhã não falava com ninguém. Andava de cabeça baixa. Depois do almoço, depois das primeiras pingas, conversava com quem quer que o olhasse nos olhos. Ele levantava a cabeça de lado (caminhava como se fosse corcunda) e começava a falar. O problema é que ninguém entendia nada do que dizia: "dunhunhu unhu nh..." e destrambelhava a falar. A única coisa possível de entender era "pinga": "dunhunhu unhu nh pingaê, pinga..." Mas seus parentes o reprimiam quando ele bebia.

Diziam que ele tinha sido professor de educação física, que tinha algum dinheiro e o álcool o deixara assim. Não sei. Nunca tive coragem de perguntar. Só ficava com raiva quando via alguém ameaçar de chamar o Dunha para alguma criança. Ele não fazia mal a ninguém.

Anoitecia e o Dunha desaparecia. Acho que os parentes (sobrinhos, eu acho) o levavam para casa. Ou ele, bêbado, desmaiava no seu quarto. Mas toda manhã, quando eu ia para a escola, lá vinha o Dunha, com sua integridade recuperada, cabeça baixa e empurrando o carrinho de mão.

*


O Magrela passa o dia caminhando. Está sempre apressado, a pé ou de bicicleta. Deve ter alguma coisa importante pra fazer. Fala e reclama o tempo todo. E te olha com cara de brabo. Magrela nem é o seu nome, ou espero que não o seja. É apenas como eu o chamo, já que não sei que nome tem. É magro, de estatura mediana e deve ter uns trinta anos.

Tem parentes na cidade, visto o modo como o tratam. Na Via Calzolai, no centro, a senhora dona do antiquário saiu no frio para conversar e dar-lhe atenção. Pelo carinho e sorriso, imagino que seja sua tia. Ela o convidou para entrar, enquanto ele explicava o que aquele homem havia feito. Parecia ser importante.

Não gosto de encontrar com o Magrela quando saio para fumar meu charuto. Ele detesta cheiro de charuto e assopra com o nariz. Reclama e fala alto. Noutro dia, estava parado fora do bar onde acabara de tomar o café pra fazer boca de pito. Enquanto acendia o charuto ele apareceu. Começou a resmungar e diminuiu o passo na minha direção. Num instante, tirei um outro charuto do bolso e ofereci a ele. De braços levantados e olhos arregalados, gritou: "O senhor é um louco! Um louco!"

*


Todo sábado saio com a Luiza para dar uma volta antes do almoço. Como a Eloá trabalha aos sábados e a Bianca vai à escola, saímos só nós dois. Passeamos pelo centro e bisbilhotamos o fim da feira, vitrines e livrarias. Aproveito para tomar um café e fumar meu charuto. A Luiza toma um suco e come um brioche. Depois, compramos jornal e damos uma boa caminhada de uma hora. O tempo que preciso para queimar o meu corona. Conversamos muito e observamos as lojas, as pessoas, os cães. Pois foi num desses momentos que aconteceu uma cena banal, da qual fui testemunha. Uma senhora bem vestida, cinqüenta, cinqüenta e cinco anos, caminhava e conversava com a filha (uns vinte e cinco anos). O dia nem era dos mais frios, mas o vento realmente incomodava. A moça parou para fechar o casaco no exato momento em que a mãe começava um assunto. A senhora falava e gesticulava, sem dar-se conta de que a filha ficara para trás, bem para trás. Um grupo de pessoas que passava desviou da senhora, que, notando o espanto nos rostos das pessoas, descobriu-se falando sozinha pela rua. Envergonhada, cobriu o rosto com as mãos, como um elefante que se esconde debaixo do sofá. Do outro lado da rua, um pai com sua filha davam boas risadas da falsa louca.

Allan

7 Comments:

Blogger Claudio Costa said...

Allan, seus "aliens", tão próximos de nós mesmos, se misturam conosco de tal forma que nos tornamos "socius". Onde a loucura? Onde a sanidade? Lembrou-me Freud, em sua instigante "Psicopatologia da Vida Cotidiana". Isto mesmo: vida cotidiana. Somos "aliens" tantas vezes...

17 de fevereiro de 2005 23:03  
Anonymous Anônimo said...

Muito bom esse blog. Vim, vi, gostei e voltarei mais.
Abração
Luiz Alberto Machado

19 de fevereiro de 2005 06:55  
Blogger Biajoni said...

homem do saco!
é, sempe tem um homem do saco!
massa, allan!
ciao!

22 de fevereiro de 2005 16:27  
Anonymous Anônimo said...

Na minha cidade ele se chamava "Lima", mas a estòria è igualzinha... o carreto, a pinga, as maes...

1 de abril de 2005 10:36  
Anonymous Anônimo said...

Deliciosas crônicas e mais, me fez lembrar da caixa de charutos que ganhei de um amigo e está guardadinha. Acho que vou pitar um agora.

23 de abril de 2005 22:45  
Blogger vivian said...

adorei teu blog, posso linkar no meu? http://iscasemvara.blogspot.com

1 de maio de 2005 00:09  
Blogger My mother says said...

Im telling you, they exist. See for yourself http://www.bestufopictures.com/

1 de março de 2006 14:14  

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