BALADA DO LOUCO

This is the strangest life I have ever known.

sexta-feira, junho 10, 2005

Aerolinhas Tabajara

A Aerolinhas Tabajara era, como se pode adivinhar pelo nome, uma empresa de aviação. Restrita ao Aeroporto da Pampulha, tinha apenas um funcionário, um certo comandante cujo nome não consegui identificar pelo crachá. Não possuía aviões. Nem mesmo uniforme seu funcionário usava. Como não havia vôos, o piloto da empresa – que passo a chamar de Comandante Tabajara - gastava as tardes sentado numa das poltronas do saguão do “Pampulha”. Quieto, calado, o olhar meio vago, um jeito desamparado. O ar de sossego triste que vem de uma espera longa e indefinida.

No dia em que o vi pela primeira vez – foi num ônibus -, não sabia que se tratava de um piloto de aviões. Imagina-se que esses sujeitos não precisem usar o transporte coletivo, mas até então eu nem suspeitava que havia exceções como aquela. O único funcionário de uma empresa aérea sem aviões jamais teria dinheiro para usar um meio de transporte mais confortável. Eis a figura: estatura baixa e o cabelo paradoxal, parecendo peruca, parecendo verdadeiro. Roupa com estampa militar ou uma camisa jeans sem mangas. Tatuagem no braço, uns 55, 60 anos. Bonezinho sobre o misterioso penteado e aquele ar de desamparo.

Em meu percurso para o trabalho, eu o via algumas vezes. Ele sempre tomava a condução na região da Lagoinha, já na avenida Antônio Carlos, principal ligação do centro da cidade à Pampulha. Como eu descia antes do aeroporto, não sabia para onde aquele ser humano curioso se dirigia. Acabei deixando o emprego – redigi minha própria carta de alforria - e nunca mais vi Tabajara.

Uns talvez três anos mais tarde, fui morar na região da Pampulha, bem perto do aeroporto. E eis que, num sábado de setembro de 2003, eis que o comandante entra no ônibus. Naquele dia descobri que ele ia ao encontro dos “bichões” de asas, mas ainda não sabia que estava diante de um peculiar piloto de aviões.

A descoberta se deu dias depois, quando o encontrei no saguão do aeroporto. A camisa jeans sem mangas, a tatuagem já desbotada no braço esquerdo, o crachá impresso de forma tosca, pregado sobre o coração: Aerolinhas Tabajara / Comandante (?). Não querendo ser indiscreta, tratei de examiná-lo com velocidade supersônica, fato que me impediu a identificação de seu nome. Ele sentado, esperando como os passageiros. A diferença é que a chamada para seu vôo nunca vinha.

Eu o vi mais umas quatro vezes naquela condição de quem só espera, e espera só. Sempre à tarde. Trabalhava no turno vespertino, pelo visto. O tempo foi passando; eu passando pelo aeroporto e notando sua ausência. Desapareceu, simplesmente. Acho que a Aerolinhas Tabajara acabou falindo por falta de aeronaves, de funcionários, de uniformes, de lanche para os passageiros, de passageiros. Ou talvez ele, cansado de esperar, tenha pedido demissão, o que fundo é a mesma coisa: Tabajara era a empresa e era ele.

Já que ignoro a verdade, prefiro pensar que o vôo imaginário que ele tanto aguardou tenha, enfim, chegado. De uma coisa tenho quase certeza: aquele é um piloto que nunca pôs os pés em um avião de verdade. E, se eu estiver certa, é uma pena.

1 Comments:

Anonymous Sonia said...

Minha primeira visita por aqui. Senti-me melancólica (não é uma crítica) ao ler esse post. Que tenha chegado a bom porto o velho comandante.

3 de junho de 2006 00:01  

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