BALADA DO LOUCO

This is the strangest life I have ever known.

quarta-feira, junho 15, 2005

Nicolau

Era um embaixador das antigas. Muitos o chamavam Comendador. Usava ternos impecáveis, gravatas extremamente sóbrias, sapatos italianos feitos à mão sempre lustrados. Abotoaduras. O eterno sorriso mostrava todos os dentes perfeitos. Sempre. Nas mãos, além da aliança e de um relógio clássico, o inseparável charuto. A sua simpatia permitia-lhe brincar com quem quer que fosse sem tornar-se inconveniente. Era especialista em brincar com moças desconhecidas.

Nicolau não era louco. Não era nem mesmo um embaixador, nem sei se era realmente comendador ou que comenda teria recebido. Era um amigo de família. Tinha um escritório na Rua da Consolação, no centro de São Paulo. No mesmo primeiro andar, na porta ao lado da sua, alugou-nos as salas onde funcionava o escritório da empresa de reformas.

Houve época em que era conhecido como "O Paxá dos Cadillacs". Cada vez que ia aos Estados Unidos comprar um lote dos carrões, escolhia os melhores hotéis e costumava presentear as telefonistas onde se hospedava com anéis de brilhantes. Numa das viagens chegou a distribuir vinte anéis. No último dia antes de entrar em vigor uma lei que proibia a importação dos seus carrões, o funcionário da alfândega o chamara, pela manhã, para informar-lhe que deveria ir retirar o último lote antes da meia-noite, ou o governo os confiscaria. Bastava assinar a papelada, retirar os carros do depósito e estacioná-los do lado de fora. Coisa de uma hora. Nicolau foi a uma festa, a um espetáculo teatral, a um jantar e esticou a noite em algum lugar. No dia seguinte, acordou tarde, tomou café e permitiu que a imprensa o fotografasse na banheira, com o imperturbável sorriso e o inseparável charuto. Havia perdido uma fortuna.

Numa das muitas vezes que foi a nossa casa, um apartamento num vigésimo quarto andar da Avenida Paulista, Nicolau encantou-se com um quadro que meu pai acabara de pintar. "Dorival, me vende esse quadro". Meu pai se recusou: "Esse quadro não está à venda." Escolha outro. Nicolau não queria outro, queria aquele. Nas semanas seguintes ele tentava uma investida, levava-nos os deliciosos kibes e esfihasque sua mulher fazia, escolhia uma garrafa de whiskie especial, oferecia almoços, mas meu pai não cedia. Numa noite, numa das insistentes visitas, Nicolau perdeu um pouco da amabilidade.

-- Dorival, somos amigos há muito tempo. Você vende todos os quadros que pinta. Por que não quer vender esse? Vende pra mim, que sou seu amigo.

Mas meu pai permanecia irredutível:

-- Esse quadro não está à venda!, sentenciou rindo.

-- Eu já tentei de tudo e você não me vende. Acho que você está querendo testar a nossa amizade e isso não me agrada. Ou você me dá uma boa razão para não me vender esse quadro, ou eu não divido mais o elevador com você.

-- Nicolau -- respondeu meu pai -- não posso vender esse quadro porque eu o pintei para dá-lo de presente a você.

Uma gargalhada encheu a enorme sala. Nicolau começou a falar coisas incompreensíveis em árabe. Pulava e gritava como um menino, beijava meu pai e a todos na sala. Abraçou o quadro e continuava a falar em árabe. Queria festejar, correr, chutar. Tirou um sapato, mordeu-o e jogou-o pela enorme janela de vidro fechada, espalhando cacos no jardim, vinte e quatro andares abaixo. Meu pai, que quase chorava de tanto rir, disse-lhe, ainda:

-- E mais: dou também aquele outro pra você levar de presente pra sua filha.

Nicolau gritou o que me pareceu um palavrão em árabe, tirou o outro sapato e arremessou-o pela outra vidraça. O par de sapatos italianos sumira na escuridão do jardim, de frente para a Avenida Paulista. Foi embora com o único sapato que lhe coubera: os sapatos sujos de cimento e tinta que um operário havia deixado após a reforma da cozinha. Debaixo do braço, os dois quadros. Acendeu um charuto dentro do elevador e, antes que a porta se fechasse, ofereceu-nos o mais belo sorriso do mundo.

Allan

sexta-feira, junho 10, 2005

Aerolinhas Tabajara

A Aerolinhas Tabajara era, como se pode adivinhar pelo nome, uma empresa de aviação. Restrita ao Aeroporto da Pampulha, tinha apenas um funcionário, um certo comandante cujo nome não consegui identificar pelo crachá. Não possuía aviões. Nem mesmo uniforme seu funcionário usava. Como não havia vôos, o piloto da empresa – que passo a chamar de Comandante Tabajara - gastava as tardes sentado numa das poltronas do saguão do “Pampulha”. Quieto, calado, o olhar meio vago, um jeito desamparado. O ar de sossego triste que vem de uma espera longa e indefinida.

No dia em que o vi pela primeira vez – foi num ônibus -, não sabia que se tratava de um piloto de aviões. Imagina-se que esses sujeitos não precisem usar o transporte coletivo, mas até então eu nem suspeitava que havia exceções como aquela. O único funcionário de uma empresa aérea sem aviões jamais teria dinheiro para usar um meio de transporte mais confortável. Eis a figura: estatura baixa e o cabelo paradoxal, parecendo peruca, parecendo verdadeiro. Roupa com estampa militar ou uma camisa jeans sem mangas. Tatuagem no braço, uns 55, 60 anos. Bonezinho sobre o misterioso penteado e aquele ar de desamparo.

Em meu percurso para o trabalho, eu o via algumas vezes. Ele sempre tomava a condução na região da Lagoinha, já na avenida Antônio Carlos, principal ligação do centro da cidade à Pampulha. Como eu descia antes do aeroporto, não sabia para onde aquele ser humano curioso se dirigia. Acabei deixando o emprego – redigi minha própria carta de alforria - e nunca mais vi Tabajara.

Uns talvez três anos mais tarde, fui morar na região da Pampulha, bem perto do aeroporto. E eis que, num sábado de setembro de 2003, eis que o comandante entra no ônibus. Naquele dia descobri que ele ia ao encontro dos “bichões” de asas, mas ainda não sabia que estava diante de um peculiar piloto de aviões.

A descoberta se deu dias depois, quando o encontrei no saguão do aeroporto. A camisa jeans sem mangas, a tatuagem já desbotada no braço esquerdo, o crachá impresso de forma tosca, pregado sobre o coração: Aerolinhas Tabajara / Comandante (?). Não querendo ser indiscreta, tratei de examiná-lo com velocidade supersônica, fato que me impediu a identificação de seu nome. Ele sentado, esperando como os passageiros. A diferença é que a chamada para seu vôo nunca vinha.

Eu o vi mais umas quatro vezes naquela condição de quem só espera, e espera só. Sempre à tarde. Trabalhava no turno vespertino, pelo visto. O tempo foi passando; eu passando pelo aeroporto e notando sua ausência. Desapareceu, simplesmente. Acho que a Aerolinhas Tabajara acabou falindo por falta de aeronaves, de funcionários, de uniformes, de lanche para os passageiros, de passageiros. Ou talvez ele, cansado de esperar, tenha pedido demissão, o que fundo é a mesma coisa: Tabajara era a empresa e era ele.

Já que ignoro a verdade, prefiro pensar que o vôo imaginário que ele tanto aguardou tenha, enfim, chegado. De uma coisa tenho quase certeza: aquele é um piloto que nunca pôs os pés em um avião de verdade. E, se eu estiver certa, é uma pena.

A louca e o poeta

A Praça Castro Alves é do povo, como o céu é do avião.

Salvador tem um centro divido em duas partes: a Cidade Alta e a Cidade Baixa. O trânsito é caótico, como em qualquer centro de cidade. As pessoas sobem e descem através do Elevador Lacerda, do Plano Inclinado (um bondinho) ou das poucas ladeiras. A Ladeira da Montanha é desaconselhável para pedestres antes da noite cair. Depois, é aconselhável somente a quem tem vocação para aventuras perigosas a baixo preço.

A Castro Alves não é exatamente uma praça. Não tem bancos, jardim ou árvores. E é inclinada. No meio da praça, a estátua do poeta com o braço levantado, declamando uma eterna poesia à cidade. Em frente à estátua, do outro lado da rua, o Cine Glauber Rocha. Como em Salvador tudo é permitido, é na Praça Castro Alves que duas ruas paralelas entre si, a Avenida Sete de Setembro e a Rua Carlos Gomes, se encontram. Na esquina desse encontro, o Edifício Sulacap. Na parte térrea do edifício há (ou havia) uma lanchonete. Era ali que comprava as cervejas em lata para ir apreciar a baía do alto, sentado no muro atrás do Poeta.

Num daqueles ensolarados dias de Salvador, decidi bisbilhotar um dos muitos sebos da região, aguardando um cliente com quem almoçaria. Essa foi a primeira vez que a vi. Uma mulher negra completamente nua, com as roupas cuidadosamente dobradas que ela mantinha contra o peito. Talvez numa lembrança do carinho que deveria haver com os cadernos e livros no tempo de escola.

Sempre por volta do meio-dia, ela atravessava a praça, vindo da direção da Montanha e descendo as escadas atrás do Cine Glauber Rocha, em direção à Baixa dos Sapateiros (uma versão baiana da paulistana 25 de Março), completamente nua. De onde viria e para onde iria? Muita gente sequer ouvira falar dela. Outros, nem acreditavam.

Caminhava decidida mas tranqüila. Se estivesse vestida seria somente mais uma secretária ou funcionária de banco, que passaria despercebida. Não havia nada que fizesse supor sofrimento ou constrangimento. A Praça era a sua casa e ela acabara de tomar banho, ou estava se preparando para sair. Não via ninguém e ninguém a via.

Após conviver tanto tempo usando roupas e aceitando as regras da sociedade sem questioná-las, confesso que realmente me intriga a idéia de alguém nu, no meio da cidade, em plena luz do dia. Mas a Praça Castro Alves realmente é do povo e, considerando o cinema, a estátua, o autor da música a quem pertence a frase lá no alto e freqüentadores daqueles arredores como esse escriba amador, diria que ela freqüentava o lugar certo. E que estava em boa companhia.

Allan

quarta-feira, junho 08, 2005

Betito e o ganso

Louco ímpar. Díspar. USP, 1979, janeiro quente.

Uma fila enorme de inscrição para cursos alternativos dentro de Letras. Eu (louca como tantos outros) na fila para tupi-guarani.

Uma cena bizarra: Betito (ele sempre foi chamado assim, acho que nem tinha mais nome), um garotão de seus 19 anos, jeans largo, camisa branca com botões abertos, alpargata rueda e uma coleira com guia. Na coleira o que??? UM GANSO. Branquinho, aprumado, bem do lado.

Onde ia Betito, lá estava o ganso. No banheiro, no refeitório, nos shows do Beto Guedes, na Poli, nas piscinas...sempre os dois, unidos e combinados
como feijão com arroz.

Isso faz tempo, mas nenhum de nós perguntou ao Betito "POR QUE ESSE GANSO PRA CIMA E PRA BAIXO?". Interessantissímo ressaltar que o ganso do Betito (ô loko), só parava mesmo pra ouvir o Arnaldo Antunes recitar poesias em cima do banco, com aquela cara de maluco, com suas calças em tecido cru, com bata combinando, sandalhões e olhos atentissimos aos movimentos do... ganso.

Lembro com certa importância que nenhum de nós pegou seu diploma: tupi-guarani, sânscrito, hebraico ou latim eram linguas para pessoas normais...rs

Soraya

quarta-feira, junho 01, 2005

Casal maluco-beleza

Na Centraal Station, em Amsterdam, um verdadeiro mundo, que logo eu dominaria. Com aquele maldito peso e a mochila que não caberia num locker, acabei rodando de um lado pro outro pra achar abrigo, já que minha reserva no albergue Vondelpark era só depois...

Achei mesmo que ia conseguir, como minha amiga falara, vaga nos outros albergues; sinistro. Tudo cheio. O maldito barco hostel que eu tinha cismado era uma fortuna e eu ainda não conhecia ninguém para dividir o tal quarto... Definitivamente eu não iria pagar 200 euros no meu primeiro dia na Europa...

Sorte que a noite só caía pra lá de oito e meia. E esta hora, na minha calma providencial dos melhores/piores momentos, eu estava sentada em frente à Central de Turismo, do outro lado da Centraal Station, fumando. Nem o ponto de guia para turistas estava aberto. Foi quando apareceu o maluco. Figuraça; "Benji".

Um baixinho de lindos olhos azuis. Malandro que só. Chegou perguntando se eu estava procurando lugar pra passar a noite. E eu fumando.

Sim, eu quero. Tô sem acomodação. O Vondel não tem vaga agora. Quer ir lá pra casa? A gente recebe pessoal como você.

Incrédula, após muita insistência, olhei o álbum que ele tinha com fotos e dedicatórias, inclusive de brasileiros.

Ele falava, mas o inglês era sofrível, ele era do Irã originalmente e eu ainda não estava propriamente acostumada a isso (500 mil sotaques diferentes...imagina...).

Papo vai, papo vem. Não sei se estou entendendo... mas o papo era de que eu tinha olhos especiais, alma não sei o quê! Quando falei que era escritora então, ferrou...ele era escritor também... Enfim, acabei indo.

No meio do caminho, entendi que se eu não quisesse pagar pelo quarto, eu podia “ficar” com eles (ele e a esposa) num menage à trois, porque ele tinha gostado muito de mim... O quê?, pensei eu... Não devo estar entendendo... Estava sim... Então me esforcei em dizer que eu só queria um lugar pra passar a noite. Desisti já no caminho. De novo.

Ainda fui procurar um lugar pra ficar. Onde diabos eu ia passar a noite? Já estava praticamente escuro e eu estava cansada. Eu ria que era uma beleza... Convite pra suruba na primeira noite, isso vai ser ótimo !!!! Já tinha esquecido como era bom viajar sozinha...

Eis que encontro o Benji de novo. Agora com a esposa, que ele tinha chamado; "Lia". Uma morena, alta, da Armênia, Argélia, sei lá, nessa altura já não sei mais.... Memória também não é o meu forte... Cool.

Então o casal tentou me convencer pro menage à trois... Não, não quero. Só um lugar pra passar a noite. Muita insistência. Se você não quiser, pode só passar a noite... E lá fui eu, depois de tanta lenga lenga, só para conhecer o lugar, como quem não quer nada....

Fui andando com a menina, Lia. O Benji continuou procurando pessoas diferentes, especiais, como ele dizia... Malucos como eu que fui, pensei eu naquele momento... Incrivelmente, parecendo me conhecer e ter certeza que eu ia ficar lá – deviam ser os meus olhos- ela foi mostrando o caminho por meio de lugares, parte de trás da Centraal, barca da esquerda ( uma baía linda, diga-se de passagem).

Conversa, conversa. Atravessa a baía. Prédio do lado tal. Rua tal. Blah Blah. Esquerda. Barco Amarelo. Rua Tal. Casa com não sei o quê na porta. Chegamos.

Bom, é agora. Entrei, super aconchegante. Quarto legal. Está aqui sua chave, ali é o banheiro, que você faz da vida, eu pinto, eu escrevo, gosto de bichos, tenho isso...

E então eu fui tomar banho... Embora pra quê? Quer saber, eles devem ser legais... No outro dia, eu iria embora bem cedo. E eu tinha a chave do quarto pra todos os efeitos. Tomei banho e saí. Fim da primeira parte da história.

***


Fui então, livre daquele peso, quase me sentindo em liberdade, dar uma volta. Sem mapa, sem nada. Eu me admiro de não ter me perdido. Parei num coffee shop, claro !!!! E aí, D Ro???? Só podia ter me lembrado desta minha grande amizade brasileira, que há tanto não vejo, está sumida no mundo...

A louca aqui, quando se deu conta, estava tarde da noite no Red Light District, mais um pouco e iam pensar que era um puta abusada saindo detrás do vidro...

Estava cansada e ligeiramente chapada e resolvi voltar. Era cedo. Menos de uma hora da manhã. E eis que encontro o Benji.

Está indo pra casa? Gostou de lá? Sim, gostei e tô indo descansar porque estou cansada. Ah, acho que não vou encontrar mais ninguém hoje, vou com você. Agora fodeu, literalmente. Foi o que pensei e ri interiormente... Rir de tudo, inclusive de si mesmo, é quase uma arte...

Fomos nós conversando na barca, maior barato, um vento, um frio que “te direi”...Eu estava congelando. Por isso, quando chegamos, entramos em casa e “eles me vêm com ‘quer vinho’ ”, “quer uísque”, pareceu um oásis...

Neguinho falou: “coitados, deviam estar querendo embebedar você”. Não creio... que fosse!!! Anyway, eu estava bebendo... como zoaria a Thais sobre o uísque duplo, algum tempo depois, in London... Ela dizia que, para me conquistar, bastava me dar um copo. É zoação, gente, sou alcoólatra somente em potencial...

As surpresas continuaram. Ouvi altas histórias. Vi várias fotos e dedicatórias. Galera bem doida. E adivinha? Ao som de Maria Bethânia. Sim, eles, os primeiros, adoravam o Brasil e tinham várias músicas de lá/ daqui.

E assim foi a primeira noite. Dia seguinte? Tomei um maravilhoso café da manhã, ao meio dia, quando eu ainda estava lá.... AAAAAAAAAAAAAhmsterdam...

Daniele Sorris

domingo, maio 08, 2005

Cutucando pivete com vara curta

Oriovaldo era de lascar o cano como se diz aqui pela região do Vale do Paraíba. Com sete anos mudou-se com a família toda que morava na baixada fluminense e fixou barraco na cidade de Pindamonhangaba,interior de São Paulo. O pai fora contratado pela Aços Villares, como peão de obra.

Logo nos primeiros dias na escola primaria já demonstrava a que veio. Irrequieto, arteiro, boca suja, ou melhor, imunda mesmo. Era expert na arte dos palavrões num sotaque carioca exagerado. Um dia apareceu com a boca vermelha e inchada, como se tivesse sido maquiado para virar palhaço. A mãe tinha esfregado com gosto pimenta malagueta numa tentativa inútil de amenizar a carreata de obscenidades. Chegou depois, na santa ignorância, a passar, água sanitária. Bobagem. seu repertório lingüístico era mesmo esse e já estava solidificado.

Não aceitava desaforo de ninguém, nem as "otoridades escolares". Ele perdoava, aprontava de tudo e mais um pouco, coisas inimagináveis mesmo: percevejos com a ponta virada pra cima na cadeira da professora, variava também grudando chiclete mascado; tirando o miolo de canetas bic, enchia com bolinhas de papel salivadas e metralhava a bunda da professora que estava de costas para a turma, só pra fazer arruaça. Numa festa em homenagem aos professores substituiu um porta-retrato feito com palitos de sorvete por um sapo asqueroso, o que lhe rendeu cinco dias de suspensão e afastou a professora premiada por alguns dias para se refazer do trauma causado. Mas o pivetinho, o danado, era inteligente, não repetia de ano, nemficava de recuperação, pra desespero dos professores ultrajados. A explicação talvez esteja no fato de que alunos vomitam aulas medíocres e enfadonhas em forma de indisciplina, tal qual quando se come algo estragado e indigesto.

De lascar o cano também era Dona Edileuza, professora já meio passada, muitos anos de magistério, ruiva com uns cabelos lisos, emplastados, grudados na cabeça... Cabelos que a vaca lambeu, falavam as más línguas. Usava um batom vermelho e abusava tanto a ponto de tingir o dentes da frente. Encalorada, arfava o tempo todo, suava, melhor dizendo, destilava, parecendo estar sempre em uma sauna tailandesa. Sofria de pressão alta, era obesa e roliça... Não desgrudava jamais de uma régua imensa presa às axilas, com a visível intenção de intimidar alunos e afins, já que não precisava daquilo: não eranem professora de geometria nem de desenho. Tida e havida como professora enérgica, não se ouvia nem mosca nas suas aulas e disto ela se gabava.

- Comigo ninguém conta farinha, mais respeito e "menas" (sic) confiança, falava aos quatro cantos.

Qualquer senão e régua entrava em ação provocando um verdadeiro estampido ensurdecedor, tamanha a força usada ao bater nas carteiras. Ela também não era fácil não.

A fama dos dois corria solta pelos corredores da escola. De um lado o pivete indolente, o próprio capeta encarnado, ede outro a déspota hitleriana. Muitos torciam para que se cruzassem, se encarassem num duelo, num tête-à-tête definitivo.

Não deu outra. Oriovaldo chegou à quarta série e a classe estava atribuída para Dona Edileuza, e o encontro tão esperado por ambos aconteceria.

Logo nos primeiros minutos da aula o pivete escondeu um estojo do colega atrás da lixeira já de caso pensado.

Dona Edileuza, ansiosa, com ira acumulada e cultivada por longos quatro anos, com a régua em riste, mais vermelha do que de costume aproximou-se.

- Escuta aqui, seu pivete mal educado. Eu não sou aquelas professoras pamonhas, bananas, sangue de barata que você teve até agora, viu!!! Por acaso o Sr. sabe com quem está falando?

- É com a Dona Edileuza.

Oriovaldo, com olhar indolente por debaixo do boné, numa voz pausada e sotaque carioca acentuado:

- GRANDE BOXXXXTA!!!

Sônia Terclavers

sábado, abril 09, 2005

O homem do pastel

Morávamos em Barbacena, cidade que já foi reconhecida nacionalmente pelo tratamento de “loucos”, que se alojavam nos manicômios lá instalados. Famílias de todo o Brasil levavam parentes para tratamento em um dos hospitais da localidade. Lembro-me do homem do pastel. Manso, vivia nas redondezas da rodoviária. Pedia dinheiro, comida, bebida e, sobretudo, pastéis. Eu e meu irmão éramos duas crianças, 5 e 6 anos, sentadas no meio fio comendo pastel desavisadamente. O homem alto, magro, cabelos ralos, roupas largas se aproximou e pediu:

- Me dá um pedaço de pastel!

Ao ouvir aquela voz fina já sabíamos do que se tratava. Não havia como fugir, fomos pegos desprevenidos. Descobrimos, por nossa própria experiência que o louco do pastel não era uma lenda. Era tão real que se encontrava na nossa frente. E para piorar queria um pedaço de pastel. Olhos arregalados, expressão de susto, meu irmão respondeu:

- Toma.

Imediatamente entregou seu pastel inteiro, não apenas o pedaço que ele queria, e fez um primeiro movimento de quem estava prestes a iniciar uma corrida. Foi quando o homem o tranquilizou:

- Não tenha medo, só estou com fome.

O homem era um “louco”, como muitos que se vê pelas ruas das cidades. No entanto, também era um ser humano que estava com fome. Desde aquele dia não tive mais medo de loucos. Eles nunca fazem mal a ninguém. Hoje posso agradecer ao homem do pastel por ter ensinado a mim e a meu irmão que “loucos” são pessoas sofridas, abandonadas por familiares. Não são criminosos. São seres humanos excluídos do convívio social!

Por Emerson Santana

quarta-feira, março 30, 2005

O homem invisível

A cidade de Embu, onde morei e para onde voltaram todos os meus irmãos e meus pais, sempre foi um ponto de convergência de artistas, pintores, boêmios e outros loucos. Algumas histórias não podem ser contadas, sob pena de arruinar famílias sólidas e -- acreditem! -- deixar muita gente estupefata. Portanto, vou contar o que pode ser contado.

Contado mas não visto. Porque em Embu tinha o homem invisível. Ele era um negro que não falava com ninguém. Andava por todo lado, fazia o que bem entendia e as pessoas se divertiam com aquele comportamento. Às vezes sentava num banco da praça, braços abertos e pernas cruzadas. Ficava ali horas e horas virando a cabeça de um lado para o outro, acompanhando o vai e vem das pessoas. Quando sentia fome, ia até uma das padarias, pegava alguma coisa e saia comendo tranqüilamente. Era invisível.

Forrest Gump tupiniquim, era raro vê-lo parado. Caminhava sempre com um passo ligeiramente acelerado, como se tivesse hora marcada para resolver algo importante. Nos passeios no mato, atrás da Fonte (Água Mineral Embu), lá estava o homem invisível caminhando na direção oposta. Na estradinha de terra da fazenda de um amigo, quilômetros longe do centro: o homem invisível. Comendo pizza no Largo da Matriz e o homem invisível passava quase esbarrando na nossa mesa. Na BR 116, voltando de São Paulo: o homem invisível. Estava por toda parte. Era o homem invisível mais visível de que eu tive notícia.

Certa vez encontrei-o em uma padaria em Copacabana. O proprietário partia pra cima dele, pois tentava sair com um pão sem pagar. O homem invisível se assustou(!): Ué, você tá me vendo? Mas eu sou invisível...! Pedi ao português que o deixasse ir e paguei por ele. E lá se foi o pão que flutuava pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana, desaparecendo aos pedaços.

Allan

sábado, março 05, 2005

Rock na periferia

Viver na periferia de São Paulo, por incrível que pareça, é como estar na idade média. Não fosse o plim plim da TV que ecoa de algumas janelas de vez em quando e os ringtones de péssimo gosto dos celulares pré-pagos que estão em cada canto, poderia muito bem ser 1200 d.c. ou qualquer data próxima. Nem é só pelo olho-por-olho-dente-por-dente que impera, mas principalmente pela mentalidade tacanha das pessoas. As igrejas ditam comportamentos e cobram as indulgências, e ai de quem não pagar ou andar na linha, porque o inferno está logo ali.

Um dos maiores pecados por aqui sempre foi gostar de rock’n roll. Lembro de momentos e diálogos impagáveis. Quando começava o culto na rua de trás e o pastor começava a pedir 10,00 para quem quisesse garantir um lugar no céu eu colocava as caixas do meu "3 em 1" na varanda e ligava Black Sabbath no último volume. Tornei-me querido e popular por atitudes assim, e não foram poucos os diálogos como este:

-- Vovó disse que você vai para o inferno porque ouve essas músicas!

-- Olha, se no inferno eu ficar livre de ver sua avó e ainda tiver boa música, não vejo a hora.

-- Mas ela disse que quem ouve isso fica louco!

-- (gargalhadas)

Tempos depois um dos garotos do bairro começou a sair com a minha turma. E não é que ele nem tinha comprado ainda a primeira camiseta do Iron Maiden e já estava andando na rua dando tapas na própria cabeça, correndo em círculos e gritando com pessoas invisíveis? Se me lembro bem ele esperava as senhoras saírem da igreja para correr atrás delas. O cara ficava horas sentado no sofá da minha sala olhando para a parede sem dizer nada ou se mover, e eu pensando que só podia ser praga da avó da garotinha.

Pelo que sei, ele está completamente curado hoje –- seja lá o que isso signifique –- e a música não teve nada com a doença dele, ao menos eu espero que não. Mas não me sai da lembrança um dia em que eu voltava da escola de ônibus e, quando passei a catraca, ouvi duas pessoas desconhecidas comentarem: olha ai, este é o rapaz que deixou fulano doido! Até hoje eu prefiro o inferno a toda esta “sanidade” que me cerca.

Marcos Donizetti

domingo, fevereiro 20, 2005

Lendas bandeirantes

Em São Paulo, cidade grande, conheci alguns personagens lendários. Quem acha que metrópoles estão longe da capacidade de gerar lendas, não conhece São Paulo. Quanto maior a cidade, maior o número de lendas. Aumenta, também, a possibilidade de tais lendas terem uma projeção superlativa, como pede a própria geografia da cidade.

Durante todo o tempo em que vivi em Sampa (você é daqueles que se incomodam quando dizem Sampa? Eu também!), pude desfrutar de encontros ocasionais com o Coreano. Nós o chamávamos Coreano, mas na realidade ninguém sabia dizer se realmente fosse coreano, chinês ou japonês. Para nós, era o Coreano. Tinha o cabelo engomado, penteado e preso por grampos à nuca. Usava um terno preto surrado, não falava uma palavra em português, andava de bicicleta e mostrava um cartaz onde pedia dinheiro para voltar ao país dele. O problema é que o cartaz também estava escrito numa língua oriental. Como é que sabíamos que no cartaz estava escrito um pedido de dinheiro? Não sabíamos! Dávamos algum dinheiro e ele ia embora resmungando.

Havia um rapaz negro, uns vinte e cinco anos, roupas esfarrapadas mas espalhafatosas. Usava um capacete de operário e óculos escuros. Mas não trabalhava. Não podia trabalhar: passava o dia inteiro subindo e descendo a Rua Augusta em uma bicicleta, com um apito que ele não parava de assoprar. Se alguém atrapalhasse sua passagem, parava, gesticulava como um guarda de trânsito e apitava de modo ensurdecedor. Sumia em dias de chuva e no período do Natal, quando acarpetavam a Rua Augusta: carpete sujo de óleo escorrega mais que asfalto molhado. Maluco, não bobo.

Outra figura enigmática era a Mulher de Roxo. Não sei dizer se fosse doida ou não, mas era uma verdadeira lenda. Ninguém jamais a vira acordada. Ou, quem a viu, não a reconheceu. Podia ser vista dormindo sentada nos pontos de ônibus, com a cabeça apoiada nos próprios seios. Fartos seios. Usava roupas roxas e tinha sempre uma sacola em cada uma das mãos e não era vista de noite. Quando você for a Sampa, observe os pontos de ônibus. Ela ainda deve estar lá.

Em Assis, interior de São Paulo, existem algumas dessas lendas. Pra falar a verdade, Assis é a cidade com a maior concentração desse tipo de lenda que eu conheço. Deve ser a água. Tem uma doida de Assis que -- loucura das loucuras! -- casou-se comigo. Tranqüilo: também bebi daquela água. Voltando às lendas, em Assis tem o Milionário, um sujeito coberto de correntes e relógios de ouro, com chapéu e pinta de fazendeiro e que só conversa sobre seus investimentos de milhões de dólares -- "Que real é dinheiro de pobre!" Onde cair morto, tem. Não tem é onde viver.

Voltando para Sampa e, loucuras àparte, meu personagem preferido era o Jacaré. O mais simpático e conhecido integrante do Exército da Salvação, o carismático Jacaré rodava todos os bares da cidade angariando fundos para a instituição. Sentava, conversava, contava piadas e ria das nossas. Muitos dos mais importantes bares e restaurantes da cidade mantinham sua foto próximo à entrada, informando que aquela era sua área. Depois da sua morte, muitos restaurantes e bares mantiveram a foto. Jacaré faz parte da história contemporânea de Sampa, que ficou menos simpática desde que ele se foi.

Allan

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

Louco de Ciúmes

Procura-me um rapaz (N.) de 20 anos, universitário. Acaba de perder a namorada (T.):

“Ela é linda, doutor, uma modelo. A gente namora desde o segundo ano do colegial, eu com 15 ano e meio, ela com 14. Fazíamos tudo junto: fins-de-semana, festas, passeios, almoços, cinema, até a própria faculdade: ela quis entrar pra mesma faculdade que eu, um ano depois de mim. A gente só não se via quando estava dormindo! Agora, ela não quer saber mais de mim, brigou comigo. Chegou pra mim, de repente, na quarta-feira passada e, sem mais nem menos, falou:

- Olha, N., há dois meses estou pensando nossa relação. Resolvi dar um tempo!

Essas palavras me detonaram, Doutor. Desmontei. Chorei, implorei, falei que ela estava errada, que ela era a mulher de minha vida. Mas ela foi irredutível, saiu do carro, lá no estacionamento da faculdade e me deixou ali, feito criança, chorando. Na hora do almoço não fui pra minha casa, mas pra casa dela. Cheguei lá e falei com a mãe dela que T. estava ficando louca! A T. chegou e nem queria olhar pra mim. Mas insisti que deveríamos conversar mais. Aceitou. Fomos pro quarto dela e, aí, ela falou que não suportava mais meus ciúmes, que queria viver a vida, que queria sair com os colegas – coisa que eu não deixava. Se eu nem mesmo tenho amigos, como é que vou ficar sem ela? Mas ela não cedeu. Então lhe prometi que iria mudar, seria outro homem, que ela poderia sair, sim, mesmo que me machucasse. Jurei, da boca pra fora, claro, que a deixaria ir às festas da turma dela sem mim, que fosse ao shopping com as colegas, até mesmo que viajasse prum sítio, no final de semana. Mas ela tinha de me prometer que não ficaria com ninguém, que não beijaria ninguém, pois eu não suportaria. Eu me mataria se soubesse disso. Ela concordou e só então fui pra casa. À noite, liguei pra ela, só pra conversar como amigos e não a encontrei. Ela tinha ido pro barzinho com a turma dela. Não agüentei: desci a Avenida Afonso Pena a 140km, cortando pela direita e pela esquerda, devo ter sido multado naquele radar da Contorno, ali do Tobogã, o senhor sabe? Cheguei na Prudente de Morais. Ela bem ali, alegre, rindo, cheio de gente, uns caras que eu nunca vi. Avancei pra cima dela. Só não bati, mas xinguei de tudo: irresponsável, insensível, traidora, burra! Burra, sim, porque me tinha largado pra ficar com gente que só quer saber de sarrar ela. Burra porque não enxerga meu amor por ela, que ela é a mulher de minha vida. Tenho certeza disso, ela é a mulher de minha vida. O pessoal até me segurou, senão teria batido nela. Acabei indo pra casa, arrependido, com medo de ter colocado tudo a perder, pois eu a agredi feio. Não durmo desde então. Hoje é segunda e não consigo comer desde quarta-feira. Emagreci já 6kg por causa dela. A vida perdeu o sentido, doutor. Quero morrer. Mas não tenho coragem de me matar, não vou deixá-la por aí. Ainda mais porque acredito que ainda vou reconquistá-la. Posso falar com ela pra vir aqui? Pra ela fazer uma terapia com o senhor e voltar atrás? O senhor me ajuda?”

(Considerações sobre os ciúmes em PrasCabeças) - Cláudio Costa

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Aliens II

Dunha era o homem do saco. Aquele que carrega sempre um saco de estopa nas costas e que as mães usam como ameaça: "Se você não for dormir já, vou chamar o Dunha." Se as crianças soubessem que o Dunha não fazia mal a ninguém...

Com menos de metro e meio, sempre sem camisa sobre aquele corpo franzino e encurvado, trabalhava de sol a sol. Passava o dia inteiro empurrando um carrinho de mão, ajudando (ou trabalhando?) em alguma pequena reforma, alguma obra. Pela manhã não falava com ninguém. Andava de cabeça baixa. Depois do almoço, depois das primeiras pingas, conversava com quem quer que o olhasse nos olhos. Ele levantava a cabeça de lado (caminhava como se fosse corcunda) e começava a falar. O problema é que ninguém entendia nada do que dizia: "dunhunhu unhu nh..." e destrambelhava a falar. A única coisa possível de entender era "pinga": "dunhunhu unhu nh pingaê, pinga..." Mas seus parentes o reprimiam quando ele bebia.

Diziam que ele tinha sido professor de educação física, que tinha algum dinheiro e o álcool o deixara assim. Não sei. Nunca tive coragem de perguntar. Só ficava com raiva quando via alguém ameaçar de chamar o Dunha para alguma criança. Ele não fazia mal a ninguém.

Anoitecia e o Dunha desaparecia. Acho que os parentes (sobrinhos, eu acho) o levavam para casa. Ou ele, bêbado, desmaiava no seu quarto. Mas toda manhã, quando eu ia para a escola, lá vinha o Dunha, com sua integridade recuperada, cabeça baixa e empurrando o carrinho de mão.

*


O Magrela passa o dia caminhando. Está sempre apressado, a pé ou de bicicleta. Deve ter alguma coisa importante pra fazer. Fala e reclama o tempo todo. E te olha com cara de brabo. Magrela nem é o seu nome, ou espero que não o seja. É apenas como eu o chamo, já que não sei que nome tem. É magro, de estatura mediana e deve ter uns trinta anos.

Tem parentes na cidade, visto o modo como o tratam. Na Via Calzolai, no centro, a senhora dona do antiquário saiu no frio para conversar e dar-lhe atenção. Pelo carinho e sorriso, imagino que seja sua tia. Ela o convidou para entrar, enquanto ele explicava o que aquele homem havia feito. Parecia ser importante.

Não gosto de encontrar com o Magrela quando saio para fumar meu charuto. Ele detesta cheiro de charuto e assopra com o nariz. Reclama e fala alto. Noutro dia, estava parado fora do bar onde acabara de tomar o café pra fazer boca de pito. Enquanto acendia o charuto ele apareceu. Começou a resmungar e diminuiu o passo na minha direção. Num instante, tirei um outro charuto do bolso e ofereci a ele. De braços levantados e olhos arregalados, gritou: "O senhor é um louco! Um louco!"

*


Todo sábado saio com a Luiza para dar uma volta antes do almoço. Como a Eloá trabalha aos sábados e a Bianca vai à escola, saímos só nós dois. Passeamos pelo centro e bisbilhotamos o fim da feira, vitrines e livrarias. Aproveito para tomar um café e fumar meu charuto. A Luiza toma um suco e come um brioche. Depois, compramos jornal e damos uma boa caminhada de uma hora. O tempo que preciso para queimar o meu corona. Conversamos muito e observamos as lojas, as pessoas, os cães. Pois foi num desses momentos que aconteceu uma cena banal, da qual fui testemunha. Uma senhora bem vestida, cinqüenta, cinqüenta e cinco anos, caminhava e conversava com a filha (uns vinte e cinco anos). O dia nem era dos mais frios, mas o vento realmente incomodava. A moça parou para fechar o casaco no exato momento em que a mãe começava um assunto. A senhora falava e gesticulava, sem dar-se conta de que a filha ficara para trás, bem para trás. Um grupo de pessoas que passava desviou da senhora, que, notando o espanto nos rostos das pessoas, descobriu-se falando sozinha pela rua. Envergonhada, cobriu o rosto com as mãos, como um elefante que se esconde debaixo do sofá. Do outro lado da rua, um pai com sua filha davam boas risadas da falsa louca.

Allan

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

Trilogia da Sandice Geracional Alheia Observada

Calhou da Verinha ser adolescente nos anos 60.

O apelido hoje é "Tamanduá"; ela sempre vai no montinho quando a cocaína é dividida. Põe a culpa nos óculos, cerca de 10 graus! "Não enxergo direito!" -- e vai no montinho!

Ótima cozinheira, vive de preparar salgados para bares e acaba sempre filando uma cerva. Trabalha durante o dia, sai distribuindo os petiscos e encontra, no início da noite, já meio trançada, os amigos do mal. E vai noite adentro.

A última vez que a encontrei foi numa danceteria. Estava no balcão, encostado, tomando uma, chega a Vera, um metro e meio de altura, olhos esbugalhados:

-- Você viu?

-- O quê, Verinha?

-- Uma nave espacial! Ela entrou aqui, soltou um raio, paralisou todo mundo! Era desse tamanho -- abriu os braços, mais ou menos um metro de comprimento.

-- Nossa!

-- Aí eu ouvi uma gargalhada, eles foram embora e tudo voltou ao normal!

...


Nos anos 70 acontecia, anualmente, um show de rock numa praça perto de casa. A figura marcante era o Berto -- ninguém sabia o nome dele. Era um louco do bairro, calmo, difícil vê-lo pela rua... Mas quando tinha o show ele se instalava lá na frente do palco e ficava dançando como um louco. Fazia um gesto constante: colocava os braços para trás, erguia a cabeça (era alto), inflava as narinas e aspirava. Buscava a brisa da ganja.

No final do show ficava impossível, dançando como um louco (que era).

Não sei de quem foi a idéia, deram para ele de presente um walkman com uma fitinha de rock. Não sei o que tinha nela, uns diziam que era Uriah Heep, outros que era Ten Years After.

Desde então ele passou a andar rápido pelas ruas, fone nos ouvidos. Parava de repente, botava-se em posição, e aspirava. No final do dia estava praticamente a correr pelas ruas do bairro -- e ai de quem ficasse em sua frente. Morreu atropelado.

...


Ela deu azar de ser adolescente nos 80. Andava com o "Head on the Door" debaixo do braço. Foi gótica e punk. Vestia-se de preto. Num momento enfiou um afinete no nariz. Noutro raspou as sobrancelhas. Bebia tudo o que lhe caísse à frente. E não rejeitava qualquer droga.

Quando percebeu, tinha passado dos 25 anos. Ainda era bonita, mas o corpo estava gasto. Queria um namorado, uma estabilidade e filhos. Não achava um pretendente. Achou.

Ele tentou enquadrar ela -- mas ela tinha problemas com autoridade. Tiveram várias brigas e dizem que ele batia muito nela. Na cabeça, pra não deixar marca.

Quando viu que seria difícil, deu um chute nela. Sem amor, quer da família, quer de quem seja, vivenum quartinho fedido com um monte de cães e gatos. Eu a conheço e a visito sempre. É uma das pessoas mais inteligentes que conheço.

Luiz Biajoni

segunda-feira, janeiro 31, 2005

Aliens

Jorge, aliás, Jorjão, era realmente muito alto. E forte. Quando alguém ousava contrariá-lo, gritava: "Olha que eu sou louco! Não respeito ninguém. Arrebento tudo!" Mas não era louco coisa nenhuma. Apenas se aproveitava do seu tamanho para intimidar todos. No cartório do fórum, onde trabalhava, gritava até com o juiz. E todos tinham medo dele. Principalmente quando gritava "...sou louco! ...arrebento tudo!" Ficava vermelho e parecia aumentar de tamanho. Gesticulava os braços e caminhava em direção às pessoas.

Sua mulher pedia que ele se acalmasse e entrava nafrente, tentando impedir que ele avançasse sobre as pessoas. Ele a empurrava e ficava mais vermelho ainda. E gritava. "Olha que eu sou louco..."

Um dia, acordou chorando: "tenho medo..." e ninguém conseguiu descobrir do quê. Nunca mais foi o mesmo. Foi internado. Quando os hospícios fecharam, sua mulher levou-o para casa. Não é perigoso, pode ser tratado em casa. Passa os dias sentado, cabeça e ombros encolhidos. Às vezes chora. Não é mais Jorjão, só Jorge. É louco e não assusta ninguém.

*


Dunga era um hippie. Alto, forte e manso. Paz e amor, bicho. Conheci-o no início dos anos setenta, quando ele fugia da clínica que recuperava viciados em drogas. Não era exatamente maluco, mas creio que as substâncias que ele consumiu provocaram uma mudança nas suas capacidades mentais. Fugia da clínica às sextas, dava umas voltas, consumia álcool ou outra coisa e era recuperado no sábado ou no domingo, antes do horário de visitas. Era uma verdadeira enciclopédia do rock. Sabia tudo sobre a história do rock e seus principais personagens. Dedilhava a guitarra imaginária de Hendrix e imitava a voz rouca de Janis Joplin: "Oh, Lord, won't you buy me a Mercedes Benz"...

Quando terminou seu período na clínica, continuou morando no Embu. Dizia estar fora das drogas, mas os efeitos eram irreversíveis. Fazia flautas de bambu como ninguém e as vendia na feira de artesanato aos domingos. As flautas tinham uma afinação perfeita. Certa vez sua filha foi visitá-lo. Era advogada ou arquiteta. Mas ele havia rompido com o passado. Abraçou a filha e o marido dela. Passeou de mãos dadas. Chorou. Mas jamais foi procurá-los na vizinha São Paulo.

Dunga tinha uma sua casinha, fazia um pouco de dinheiro, mas gostava mesmo era de passar o dia perambulando, pedindo esmola e dormindo no banco da praça. Às vezes alguém se irritava e batia nele. Chorava e corria para a padaria, onde o proprietário o protegia, além de dar-lhe comida e uma cachacinha. Era incapaz de fazer mal a uma mosca. Enorme, mancava da perna direita, cabelos e barba compridos. Quando ficou doente, levaram-no para o hospital e parece que aceitou ajuda da família. Depois, voltou. Perambulava por toda a parte. Às vezes incomodava mesmo. E escolheu como último leito o banco ao lado da igreja. Paz e amor, bicho.

*


Das Dores era uma mulata bem apessoada (na época, se dizia assim). Num daqueles longínquos subúrbios do Rio, morava com a família. Não a sua família, mas aquela que a havia adotado. Fora acolhida um dia, ainda menina, quando eles cansaram de vê-la dormir sob a marquise da quitanda (na época, tinha quitanda). Ninguém nunca soube de onde ela apreceu. Nem ela. Só sabia o próprio nome: Das Dores. Das Dores ria sempre. Jamais usou as palavras morte, doença ou qualquer outra que pudesse transmitir tristeza ou sofrimento. Apesar disso, fazia comentários que nos permitia entender suas crenças. Quando assistia televisão e aparecia algum ator jovem, dizia: "Tadinho, tão novinho..." A caixa barulhenta que tocava música era a ligação deste mundo com o dos mortos. Quando alguém morria, ia pra lá. O vizinho morrera num domingo, em meio ao programa do Chacrinha (na época, o Chacrinha tinha um programa). No domingo seguinte, apesar do medo que ela tinha do Chacrinha, foi assistir à TV porque queria ver o vizinho, que sempre lhe fora gentil. Não a deixavam usar saias curtas, pois sentava de qualquer jeito. Mas não usava calça comprida de jeito nenhum. Ajudava na arrumação da casa e aprendeu a cozinhar como poucos.

Quando visitava o pessoal do subúrbio, me divertia batendo papo com Das Dores, que não falava coisa com coisa. "Moço, você viu aquela música nova que tá tocando no rádio? Eu que fiz. Mas não quero mais não porque agora tá na caixa. Você já namorou? Quando eu crescer, vou arrumar um homem bem bonito pra casar." Mas ela já era crescida, apesar de moça (na época, existiam moças). E ria o tempo todo. Uma felicidade infantil e contagiante. Um rosto bem feito e olhos grandes. Dizem que ela não envelheceu nem um dia. Continua com a aparência jovem de sempre.

Allan

domingo, janeiro 30, 2005

Osvaldinho

Osvaldinho tinha um escravo. O escravo de Osvaldinho era seu motorista, guarda-costas, servo, companheiro e babá dos garotos de rua que Osvaldinho recolhia em sua casa. Certa vez impediram Osvaldinho de entrar em uma boate. O leão de chácara disse:

-- Desculpe, doutor Osvaldo! Recebi ordens de não deixá-lo entrar.

Osvaldinho, contrariado, ordenou:

-- Escravo, dê um soco nele!

O escravo de Osvaldinho, um metro e setenta, uns setenta quilos e muito mais maluco que o patrão, não esperou uma segunda ordem e deu o soco no grandão. Osvaldinho ainda tentou proteger o escravo e acabou, também ele, levando uns safanões. Entraram na Mercedes e sumiram na noite. Terminaram a madrugada em uma delegacia, por terem despejado dois galões de piche na enorme porta de madeira da boate, antes de atearem fogo.

Osvaldinho gostava de fazer coisas esquisitas. Osvaldinho era esquisito. Decidiu correr toda manhã, mas tinha preguiça. Acordava o escravo e mandava-o ir de carro atrás. Quando cansava, entrava no carro e continuava o passeio. Uma madrugada, cansado do cooper, decidiu entrar no carro e disse que queria dirigir. Como não pegava bem ter o escravo como passageiro, mandou-o ir a pé, correndo atrás do carro. Rodou outras duas horas, seguido pelo escravo, que não tinha porte atlético e ainda levava pelo corpo as marcas de uma surra da noite anterior. Osvaldinho dizia que o importante era dar o primeiro soco e o escravo vivia apanhando na rua. "Escravo, bate nele!"

Adorava quando forravam a Rua Augusta com carpete, antes do Natal. Pegava um cavalo e ia dar umas voltas sobre o carpete colorido. Certa vez estacionou um Porsche dentro do saguão do aeroporto de Congonhas, meteu as chaves no bolso, pegou um avião e partiu.

Osvaldinho sempre arrumava confusão. Quando passava dos limites, esqueciam a influência da família rica e o punham pra fora. A família pagava pela distância de Osvaldinho. Em alguns locais ele simplesmente era proibido de entrar. Osvaldinho se vingava. Foi numa dessas que Osvaldinho teve a idéia que mais me divertiu. Proibido de entrar no fechadíssimo e elitizado clube por dois meses, Osvaldinho reuniu a molecada que ele abrigava em sua mansão, ordenou ao escravo que comprasse um lote de Alka-Seltzer e sacos de estopa. Com ajuda dos meninos e do escravo, Osvaldinho encheu alguns (alguns!) sacos de estopa com o Alka-Seltzer devidamente livre do invólucro, alugou um helicóptero e jogou os sacos dentro das piscinas do clube, numa ensolarada tarde de domingo.

Mas como até mesmo a magia dos loucos é insuficiente para driblar a fatalidade, nem o escravo conseguiu livrar Osvaldinho da morte. Morte natural. Coisa esquisita para um sujeito esquisito como Osvaldinho. Mas o escravo continua vivo. Com a morte de Osvaldinho, o passe do escravo foi disputado a tapas.

Allan